Acordamos
e, instintivamente, nossas mãos começam a tatear ao lado do travesseiro até
encontrá-lo. Mal abrimos os olhos e eles já são inundados pela luz da tela LED
do smartphone. Sem perceber,
forçamos a vista. Não porque alguém entrou no quarto e abriu as janelas e
cortinas (fazendo os raios de sol entrarem), mas porque tentamos focalizar o
que dizem as últimas notificações, enquanto um brilho tão intenso quanto uma
lanterna agride nossas retinas.
Não nos importamos com isso. Queremos mais é descobrir o que se passou nessas
oito, sete, seis, cinco horas em que estivemos longe de tudo, dormindo. “Seria
meu sonho não ter sono e poder acompanhar cada curtida que recebo?”. Uma
demorada investigação nos grupos do Whatsapp, nos status recentes do Facebook e nas fotos que
nossos amigos postaram durante a noite no Instagram tem um efeito
revigorante. Aquela sensação de estar por fora desaparece e podemos, enfim,
iniciar o dia. Não, espera! O celular acabou de vibrar, precisamos saber o que
é!
Você já parou para notar que tanto as empresas de tecnologia quanto os traficantes
de drogas chamam seus clientes pelo mesmo nome: “usuário”? Se isso é apenas uma
coincidência ou não, o certo é que o uso descontrolado das redes sociais pode,
sim, ser comparado com o abuso de substâncias tóxicas. A ansiedade que alguém
sente antes de checar as notificações do celular é a mesma que um fumante
experimenta antes do primeiro cigarro da manhã. Se hoje, em uma sociedade que
se preocupa cada vez mais com a saúde e o bem-estar, tendemos a condenar a
nicotina, por que achamos normal adormecer e acordar com o telefone sempre à
mão?
Nosso Smartphone são carteiras de cigarros modernas.
Nossos smartphones são carteiras de
cigarro modernas.Se
fumar pode nos levar ao câncer de pulmão ou de laringe (entre outras consequências amplamente
divulgadas), o excesso de informações online desenvolve em nós o fear of missing
out (FOMO, na sigla em
inglês). Esse transtorno nada mais é que o medo de estar perdendo ou não fazer
parte de algo importante. Por essa razão, buscamos estar conectados o tempo
inteiro. Também é um anseio irracional, afinal é impossível poder acompanhar
toda e qualquer novidade que surge em nossas timelines.
Me diga: você já
conseguiu chegar ao fim dessa timeline?Pessoas
com FOMO, porém, apresentam profundos questionamentos quanto a si próprio e aos
outros. Essas incertezas, que normalmente se manifestam em dúvidas como “Será
que alguém me ama?”, “Estou
realizando algo significativo na minha vida?” e “Será
que a minha existência tem alguma importância?”, são levadas para o ambiente virtual e alimentadas com
comentários, mentions e likes. Quando isso não acontece, ou as notificações diminuem,
a frustração pode causar depressão e ansiedade severas.
Também é bastante comum que o vício em wi-fi (e em seguida o fear of missing out) se desenvolva a partir do excesso de trabalho. A
facilidade com que chefes podem encontrar seus funcionários atualmente, a
qualquer hora e em qualquer lugar, é um agravante para o medo de ficar
desconectado.
Se você passou por alguma situação semelhante com a que aconteceu comigo, ou
sente que está precisando de uma “desintoxicação digital”, pode tentar as dicas
a seguir. Elas são baseadas na minha própria experiência e, preciso dizer,
estão me ajudando e muito a superar um quadro de ansiedade adquirido depois das
eleições.
Passe
um tempo desconectado:
Ok, essa é óbvia, mas
me deixa explicar. Para quem sofre com o fear of missing out não basta ficar longe do smartphone e do notebook. A
mente dessas pessoas continuam conectadas com as redes sociais mesmo em
situações de total isolamento e um tratamento de choque, nesses casos, pode
apenas levar a mais frustração. Encontre uma atividade que você goste de fazer
(que, claro, não precise de uma conexão wi-fi) e dedique tempo a ela. Cozinhe, leia, jogue videogame
ou vá para a academia (sem o celular, por favor). Enquanto estiver fazendo o
que quer que seja pra ocupar a cabeça, não esqueça de deixar o aparelho no modo
“Não Perturbe” para você não ser interrompido pelas notificações. Sugiro
configurar alguns números importantes (como os da sua família e do seu cliente
ou chefe) na lista de prioridades, assim, caso ocorra alguma emergência, você
pode ser facilmente avisado através de uma ligação.
Cozinhar é uma ótima
maneira de esquecer das notificações. Afinal, como diz minha irmã, ninguém
consegue preparar algo gostoso de má vontade e com a cabeça distante.
Pule
as centenas de mensagens não lidas nos grupos de Whatsapp:
A menos que o seu
número seja novo e você ainda não tenha sido incluído em todos os grupos da
família e do trabalho, quando você abrir o Whatsapp pela primeira vez no dia será atingido por centenas de
mensagens não lidas. Resista à tentação de visualizar cada uma delas. Acredite,
poucas dizem respeito a você e a maioria são totalmente dispensáveis. Além de
poupar tempo, isso ainda evita que a sua manhã seja estragada por comentários
imbecis daquele tio metido a cientista político.
No caso dos grupos de trabalho, qualquer demanda que tenha surgido ali durante
a sua ausência ou já foi resolvida por outra pessoa que estava online no
momento, ou pode ser deixada para quando você estiver no seu horário de
trabalho (afinal, é para isso que prestamos expediente, certo?). Lembre-se: se
seu chefe precisar falar diretamente contigo, ele não fará isso em um grupo. Em
situações de urgência, o mais certo é que ele te ligue e não mande
mensagens.
Diminua
a quantidade de apps instalados em seu celular:
Uma pesquisa recente
da associação de marketing móvel MMA apontou, em setembro passado, que o
brasileiro costuma utilizar até oito aplicativos no celular por semana, em
média. Pode parecer pouco, mas o mesmo estudo também afirmou que 83% dos
usuários de smartphones do país realizam
downloads de novos programas periodicamente. Ou seja, entupimos nossos
aparelhos com apps que usamos uma vez e
depois deixamos de lado.
Esses pobres rejeitados, porém, não querem ser
esquecidos e enviam notificações para a sua tela sempre que possível. Realize
uma faxina no seu telefone e exclua aquelas redes sociais que você não acessou
há, pelo menos, um mês. Você precisa mesmo de uma conta no Snapchat depois que migrou
todos os seus posts para o Instagram Stories? Desculpa, Snap! Não é pessoal.
Porém, quanto menos aplicativos brigarem por nossa atenção, melhor vai ser para
a nossa saúde mental.
Tem app pra tudo nessa vida,
até para ficar ocupando espaço nos nossos smartphones.
Desinstale
o Facebook
(ou, pelo menos, desabilite as notificações):
Não é de hoje que o app do Facebook é visto como a
grande pedra no sapato dos nossos smartphones. Ele consome uma quantidade enorme de RAM, além de
ocupar espaço na memória suficiente para centenas de fotos (se você é usuário
de iPhone, sabe o quanto isso
é um problema). Mesmo assim, a simples ideia de apagá-lo é quase uma heresia. Para quem trabalha
como social media, é impossível não conviver com a rede social de Mark Zuckerberg (acredite, eu
tentei), mas você pode controlar melhor o tempo que passa navegando pela timeline. Desinstalar o
aplicativo do telefone, vai te forçar a usar a versão web quando precisar
checar alguma postagem — e, te garanto, ninguém terá esse trabalho extra se o
que for fazer no Facebook não for realmente
importante.
Se esse for um passo radical demais para você, pode começar desabilitando as
notificações irrelevantes. Sério, o Facebook é especialista em nos manter informados com coisas que
não precisamos saber. Entre nas configurações da sua conta e desmarque todos os
avisos de grupos, páginas e entradas ao vivo dos seus amigos. Deixe apenas as
marcações que dizem respeito a você e às páginas que você gerencia. Logo verá
que sua tela vai deixar de acender a cada 15 minutos e a paz retornará para a
sua vida.
“Um total
desconhecido acaba de publicar naquele grupo que você nunca olha”